{"id":15785,"date":"2021-06-18T15:20:35","date_gmt":"2021-06-18T15:20:35","guid":{"rendered":"https:\/\/adcap.org.br\/?p=15785"},"modified":"2021-06-18T15:20:35","modified_gmt":"2021-06-18T15:20:35","slug":"adcap-net-18-06-2021-correios-como-a-privatizacao-fere-o-brasil-veja-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adcap.org.br\/index.php\/adcap-net-18-06-2021-correios-como-a-privatizacao-fere-o-brasil-veja-mais\/","title":{"rendered":"Adcap Net 18\/06\/2021 &#8211; Correios: como a privatiza\u00e7\u00e3o fere o Brasil  &#8211; Veja mais!"},"content":{"rendered":"<div>\n<p style=\"text-align: center;\">Ge\u00f3grafo mostra, em livro essencial, como a empresa p\u00fablica vai al\u00e9m do servi\u00e7o postal: \u00e9 tamb\u00e9m elo important\u00edssimo para conectar o pa\u00eds e articular pol\u00edticas p\u00fablicas. Em tempos de e-commerce, corpora\u00e7\u00f5es globais agem para sabot\u00e1-la<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1.jpg\" data-rel=\"penci-gallery-image-content\" ><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-15786 size-medium\" src=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1-300x213.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1-300x213.jpg 300w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1-768x545.jpg 768w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1-585x415.jpg 585w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-1.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2.jpg\" data-rel=\"penci-gallery-image-content\" ><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15787\" src=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-1024x323.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-1024x323.jpg 1024w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-300x95.jpg 300w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-768x242.jpg 768w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-1170x369.jpg 1170w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2-585x184.jpg 585w, https:\/\/adcap.org.br\/wp-content\/uploads\/News-1806-2.jpg 1488w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elaborar uma reflex\u00e3o e uma interpreta\u00e7\u00e3o do correio brasileiro considerando a sua complexidade e as m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es que desempenha na atualidade reclama o tratamento do tema da cidadania. Para Milton Santos, a realiza\u00e7\u00e3o concreta da cidadania somente se torna poss\u00edvel com a componente territorial. Para tanto, prop\u00f5e um modelo c\u00edvico do territ\u00f3rio em substitui\u00e7\u00e3o ao modelo econ\u00f4mico vigente, que se funda a partir de dois elementos: a cultura e o territ\u00f3rio. Para o autor, faz-se necess\u00e1rio,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[\u2026] de um lado, uma instrumenta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio capaz de atribuir a todos os habitantes aqueles bens e servi\u00e7os indispens\u00e1veis, n\u00e3o importa onde esteja a pessoa; e, de outro lado, uma adequada gest\u00e3o do territ\u00f3rio, pela qual a distribui\u00e7\u00e3o geral dos bens e servi\u00e7os p\u00fablicos seja assegurada. (SANTOS, [1987] 2007, p. 18)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse modelo, o territ\u00f3rio seria pensado visando uma pol\u00edtica redistributiva, de maneira a permitir o acesso aos servi\u00e7os fundamentais independentemente do lugar onde se esteja. Essas a\u00e7\u00f5es seriam fundamentais para garantir uma cidadania completa, com a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais b\u00e1sicas e essenciais no lugar onde a popula\u00e7\u00e3o habita. Para isso, \u00e9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a no uso e na gest\u00e3o do territ\u00f3rio que oriente para l\u00f3gicas que extrapolem a busca pelo lucro. Essa proposta sob um novo paradigma de organiza\u00e7\u00e3o e planejamento do territ\u00f3rio deve ser entendida como um direito inalien\u00e1vel do cidad\u00e3o, j\u00e1 que deixar ao mercado a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos \u00e0 vida contribui para o acirramento das desigualdades e a seletividade de acesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua proposta, Santos ([1987] 2007) elabora uma distin\u00e7\u00e3o entre os \u201cfixos p\u00fablicos\u201d e os \u201cfixos privados\u201d. Os fixos privados seriam aquelas infraestruturas constru\u00eddas e controladas pelo mercado, cuja distribui\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio obedece \u00e0 l\u00f3gica da m\u00e1xima lucratividade. J\u00e1 no caso dos fixos p\u00fablicos, sob o controle do Estado, a l\u00f3gica de sua implanta\u00e7\u00e3o difere do mercado e acompanha \u2013 ou deveria acompanhar \u2013 o suprimento das necessidades da popula\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, os fixos p\u00fablicos podem tamb\u00e9m ser considerados como \u201cfixos sociais\u201d. A instala\u00e7\u00e3o de novos fixos sociais nos lugares contribuiria, assim, para alterar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreendendo o servi\u00e7o postal brasileiro como um servi\u00e7o p\u00fablico, haveria correspond\u00eancia entre a topologia dos Correios e o modelo c\u00edvico do territ\u00f3rio? Ao propor uma pol\u00edtica orientada para a cria\u00e7\u00e3o de fixos sociais, Santos ([1987] 2007, p. 59) assegura que, \u201cno caso das cidades, bastaria um projeto consequente para dotar a popula\u00e7\u00e3o de \u2018fixos\u2019 sociais. E no interior, a necessidade \u00e9 de criar, \u2018artificialmente\u2019, n\u00facleos destinados a servir \u00e0s popula\u00e7\u00f5es em derredor, ou fortalecer aglomera\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes\u2026\u201d. Ao instalar ag\u00eancias em todas as cidades brasileiras e, al\u00e9m disso, ainda criar unidades de atendimento em vilas e \u00e1reas rurais mesmo quando os lucros da unidade n\u00e3o cobrem as despesas de seu funcionamento, ao garantir a entrega domiciliar em todos os escal\u00f5es da rede urbana \u2013 da metr\u00f3pole \u00e0s cidades ribeirinhas da Amaz\u00f4nia \u2013, assegurando um servi\u00e7o postal universal, os Correios se aproximam da no\u00e7\u00e3o de um modelo c\u00edvico, cujos fixos postais cumprem, em muitos casos, fun\u00e7\u00f5es de fixos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse conjunto da materialidade e das a\u00e7\u00f5es dos Correios aponta para um modelo c\u00edvico do territ\u00f3rio, pautado na mais igualit\u00e1ria distribui\u00e7\u00e3o e na maior acessibilidade poss\u00edvel aos servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade, indispens\u00e1veis \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da cidadania. Destarte, torna-se indispens\u00e1vel um planejamento territorial, assumido pelo Estado, que crie condi\u00e7\u00f5es materiais e normativas para impulsionar uma log\u00edstica a favor dos lugares, com vistas a suprir as necessidades cotidianas de popula\u00e7\u00f5es inteiras marginalizadas pelo mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A log\u00edstica deve ser problematizada como uma atividade que, deixada exclusivamente ao mercado, mais se beneficia dos lugares e de suas virtualidades do que os favorece. Calcada no lucro, a log\u00edstica empresarial \u00e9 um modelo eficiente de drenagem dos recursos dispon\u00edveis nos lugares para os centros de gravidade da economia capitalista. O atual modelo que se imp\u00f5e \u00e9 aquele dos lugares para esse tipo de log\u00edstica, onde as diferentes por\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio adequam suas infraestruturas, seu conte\u00fado t\u00e9cnico e normativo, e se rearranjam para permitir que a log\u00edstica, esp\u00e9cie de Hermes contempor\u00e2neo, o deus da velocidade, possa reinar, especialmente para alguns. \u00c9 urgente pensar num outro modelo poss\u00edvel, aquele de uma log\u00edstica para todos os lugares, onde estes tenham as suas necessidades b\u00e1sicas supridas e favorecidas pelos progressos t\u00e9cnicos da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora associada aos interesses de mercado na atual fase da globaliza\u00e7\u00e3o, a log\u00edstica nasceu no seio do Estado e deve ser problematizada como uma a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para a execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. A log\u00edstica postal, por seus atributos espaciais (espa\u00e7o banal) e temporais (cotidiano), al\u00e9m da pr\u00f3pria natureza do objeto postal e a diversidade dos agentes envolvidos, n\u00e3o pode ser assumida pelo mercado, dada a pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o do escopo de a\u00e7\u00e3o dos agentes privados. Ela se revela estreitamente a fim de um modelo mais igualit\u00e1rio de distribui\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os b\u00e1sicos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, se se compreende o correio como parte da infraestrutura do territ\u00f3rio, e n\u00e3o apenas como um servi\u00e7o complementar \u2013 o correio, mais que um operador log\u00edstico postal, \u00e9 um elemento imanente do territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica na forma\u00e7\u00e3o socioespacial brasileira, o correio \u00e9 um importante elo de integra\u00e7\u00e3o territorial, n\u00e3o somente nas extintas administra\u00e7\u00f5es postais, mas sobretudo hoje. Essa atribui\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica do Estado encontra na institui\u00e7\u00e3o postal uma caracter\u00edstica peculiar que possibilita articular todos os domic\u00edlios sob uma mesma l\u00f3gica. Como relegar ao mercado tamanha atribui\u00e7\u00e3o? Certamente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um modelo c\u00edvico ao reduzir a integra\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio \u00e0 imagem da topologia seletiva das corpora\u00e7\u00f5es postais privadas. O correio brasileiro, com toda a sua complexidade, nos deixa pistas para entender a constru\u00e7\u00e3o desse projeto de futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este trabalho contribui para o debate em torno do monop\u00f3lio postal brasileiro ao demonstrar que esse quadro normativo assegura a sobreviv\u00eancia da empresa nacional num cen\u00e1rio mundialmente competitivo e desigual, onde as corpora\u00e7\u00f5es privadas se recusam a atuar nas regi\u00f5es mais deficit\u00e1rias, na perspectiva do mercado. A manuten\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio estatal do setor postal significa, na pr\u00e1tica, impedir que parte dos lucros sejam drenados para a iniciativa privada, cuja concentra\u00e7\u00e3o em poucas empresas multinacionais levaria \u00e0 inviabilidade da execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que beneficiam a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Nesse sentido, o fim do monop\u00f3lio n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o, como querem os juristas, mas uma quest\u00e3o pol\u00edtica e pol\u00edtico-territorial. A pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o dos Correios em regi\u00f5es e lugares n\u00e3o lucrativos j\u00e1 contempla o papel dessas ag\u00eancias, verdadeiros fixos sociais, como indutoras de pol\u00edticas p\u00fablicas e da cidadania, al\u00e9m da pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o da empresa p\u00fablica na cria\u00e7\u00e3o de endere\u00e7os. A log\u00edstica dos Correios n\u00e3o pode ser diretamente comparada \u00e0 das empresas postais privadas, pois o privil\u00e9gio da empresa p\u00fablica se torna, em realidade, a garantia da presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os nas periferias do territ\u00f3rio. Mais que uma organiza\u00e7\u00e3o postal, os Correios s\u00e3o um agente estatal que possibilita a execu\u00e7\u00e3o coordenada de pol\u00edticas p\u00fablicas. Portanto, as condi\u00e7\u00f5es para essa atua\u00e7\u00e3o capilar em escala nacional devem ser asseguradas \u00e0 luz de uma reserva de mercado que permita minimamente o equacionamento do custeio total da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O servi\u00e7o postal universal, como um direito, n\u00e3o pode estar dissociado do debate em torno do monop\u00f3lio estatal, pois universalidade e livre concorr\u00eancia s\u00e3o princ\u00edpios contradit\u00f3rios. Levar os servi\u00e7os a todos os lugares passou a ser interpretado como uma atribui\u00e7\u00e3o do Estado, num cen\u00e1rio onde as empresas privadas n\u00e3o s\u00e3o obrigadas a cumprir nenhuma a\u00e7\u00e3o para com esse princ\u00edpio. Ora, se a atribui\u00e7\u00e3o de manter um servi\u00e7o universal, com todo o custo que esse projeto acarreta, continua sob os ausp\u00edcios do Estado, por que deixar ao mercado os nichos mais lucrativos do correio, sobretudo os servi\u00e7os expressos oferecidos entre as metr\u00f3poles? No Brasil, os Correios s\u00e3o um bom exemplo de empresa p\u00fablica eficiente que supre as exig\u00eancias de servi\u00e7os mais r\u00e1pidos e modernos sem abdicar de a\u00e7\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o e universaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, ratifica-se a import\u00e2ncia de manter um servi\u00e7o postal p\u00fablico no Brasil, especialmente pelas caracter\u00edsticas que possui. Os fluxos majoritariamente regionais de correspond\u00eancias desmistificam a ideia de um fluxo global e recolocam a quest\u00e3o nacional na ordem do dia: quem pode assumir os servi\u00e7os na Amaz\u00f4nia ou no interior da regi\u00e3o Nordeste, sen\u00e3o o Estado? A constata\u00e7\u00e3o de que mesmo no interior do pa\u00eds os fluxos postais inter-regionais (longa dist\u00e2ncia) s\u00e3o minorit\u00e1rios se comparados \u00e0s trocas dentro de uma mesma regi\u00e3o tamb\u00e9m relativiza a no\u00e7\u00e3o de um correio a servi\u00e7o das empresas do circuito superior, cuja concentra\u00e7\u00e3o na metr\u00f3pole paulista d\u00e1 uma dimens\u00e3o da divis\u00e3o territorial do trabalho, mas est\u00e1 longe de traduzir a complexidade do correio como um fen\u00f4meno multiescalar. Nesse sentido, a diversidade de agentes que utilizam o servi\u00e7o postal desloca o debate do \u00e2mbito corporativo, que se alimenta dos interesses dos grandes postadores (e-commerce, m\u00eddia impressa, bancos e operadoras de t\u00edtulos de pagamento etc.) em fazer do correio a imagem de seus interesses, para alcan\u00e7ar na esfera p\u00fablica o lugar de sua realiza\u00e7\u00e3o, permitindo a satisfa\u00e7\u00e3o de todos os agentes independentemente de sua localiza\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os resultados apresentados convidam a um debate atual sobre o correio brasileiro considerando sua dimens\u00e3o territorial, na encruzilhada entre os interesses externos e as necessidades internas do pa\u00eds. Amparadas em anseios geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos, as empresas multinacionais de correio reproduzem a perversa ordem mundial vigente, que favorece exclusivamente os capitais concentrados nos pa\u00edses centrais e que busca, agora, o controle sobre os fluxos das cartas e encomendas de todo o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, quando a no\u00e7\u00e3o de \u201cterrit\u00f3rio postal \u00fanico\u201d parece ter se tornado uma panaceia, as desigualdades socioespaciais n\u00e3o permitem falar em homogeneiza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 antes uma psicosfera criada sob a ideia de fluxos e agentes globais, de um lado, e redu\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia das fronteiras e dos territ\u00f3rios nacionais, de outro, que vem em aux\u00edlio do projeto violento das empresas multinacionais. Desde a divis\u00e3o internacional do trabalho at\u00e9 as desigualdades regionais de consumo e as diferen\u00e7as na disposi\u00e7\u00e3o da materialidade do meio geogr\u00e1fico (principalmente a infraestrutura de transporte), \u00e9 poss\u00edvel identificar no correio diferentes usos do territ\u00f3rio, que se traduzem em redes postais exclusivas, na diversidade dos prazos de entrega e na multiplica\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito da divis\u00e3o territorial do trabalho, a elabora\u00e7\u00e3o de uma tipologia e topologia dos Correios atrelada \u00e0 rede urbana possibilita empiricizar o correio e romper com uma no\u00e7\u00e3o de \u201cexpresso\u201d como temporalidade instant\u00e2nea e homog\u00eanea. O tempo expresso n\u00e3o pode alcan\u00e7ar o territ\u00f3rio igualmente porque \u00e9 exigente de condi\u00e7\u00f5es similares de fluidez, da\u00ed sua seletividade e predomin\u00e2ncia nos espa\u00e7os metropolitanos. Assim, a constru\u00e7\u00e3o de um modelo c\u00edvico excede a vorticidade (leia-se: vorti-cidade) dos servi\u00e7os expressos para incluir as m\u00faltiplas temporalidades dos lugares, de todos eles. Por isso deve-se insistir no fato de que as empresas postais privadas, ao priorizarem os servi\u00e7os expressos, est\u00e3o aqu\u00e9m de um modelo de consolida\u00e7\u00e3o da cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve-se compreender a velocidade em sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, juntamente com a t\u00e9cnica. Para que e para quem a rapidez ou a lentid\u00e3o? Onde elas t\u00eam lugar? Na constru\u00e7\u00e3o de um modelo c\u00edvico, importar\u00e1 mais o tempo das necessidades da popula\u00e7\u00e3o e dos lugares do que o tempo mais expresso, produtor de aliena\u00e7\u00e3o. Como demonstrado, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender a rapidez da circula\u00e7\u00e3o sem a sua contrapartida, a lentid\u00e3o, do mesmo modo que os fluxos materiais e imateriais n\u00e3o s\u00e3o excludentes. As moderniza\u00e7\u00f5es se instalam seletivamente no territ\u00f3rio, fazendo com que os elementos novos convivam com aqueles que se tornaram velhos e a integra\u00e7\u00e3o da\u00ed decorrente n\u00e3o seja sin\u00f4nimo de fim das diferencia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscou-se contribuir para a compreens\u00e3o do papel da informa\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio, entendendo os fluxos informacionais como parte da circula\u00e7\u00e3o do correio e sem os quais n\u00e3o se pode falar em servi\u00e7os postais atualmente, principalmente os expressos. Como apresentado, os fluxos materiais e imateriais devem ser analisados conjuntamente, o que explica que a difus\u00e3o da internet foi equivalente ao aumento e \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o do fluxo postal, e n\u00e3o \u00e0 sua supera\u00e7\u00e3o; e, quanto mais os fluxos imateriais se tornam espessos, mais os fluxos materiais se densificam e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na atualidade, quando do mail (correio) chega-se ao e-mail (correio eletr\u00f4nico), o princ\u00edpio de inviolabilidade da correspond\u00eancia contrasta com a invas\u00e3o de privacidade das empresas de comunica\u00e7\u00e3o virtual. O sigilo das mensagens eletr\u00f4nicas \u00e9 diariamente quebrado por empresas como Google, Facebook, WhatsApp e in\u00fameras outras, seja pelo acesso n\u00e3o autorizado ao seu conte\u00fado ou pela permiss\u00e3o dos usu\u00e1rios exigida pelas empresas nos contratos de utiliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. Al\u00e9m dos indiv\u00edduos, os Estados tamb\u00e9m passaram a ser espionados por grandes empresas e por outros Estados em suas trocas de correspond\u00eancias por meios virtuais. Nessa conjuntura, manter o correio p\u00fablico significa assegurar ao menos uma via \u201cinviol\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hierarquia n\u00e3o desaparece atualmente, mas adquire novos conte\u00fados e maior complexidade. Nem todos os lugares conseguem romper a amarra da trama escalar hier\u00e1rquica, principalmente os espa\u00e7os da lentid\u00e3o dotados de sistemas t\u00e9cnicos menos modernos. Podemos considerar o territ\u00f3rio como agido, sofrendo a a\u00e7\u00e3o do Estado, do mercado e de diversos agentes que alteram o seu conte\u00fado e funcionamento por meio da norma e de diversas a\u00e7\u00f5es. Mas a materialidade, o conjunto das formas, continua nos autorizando a falar em um territ\u00f3rio ativo, pelo seu potencial de se impor \u00e0s a\u00e7\u00f5es que se realizam. \u00c9 a trama da diferencia\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio que faz com que cada lugar seja singular e que nem o tempo nem mesmo o espa\u00e7o possam ser homogeneizados como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os resultados apresentados, novas perguntas e desafios de pesquisa podem ser formulados. Pelos objetivos estabelecidos, n\u00e3o foi poss\u00edvel analisar a log\u00edstica postal na escala intraurbana e intrametropolitana, com a complexidade que envolve os servi\u00e7os de entrega dentro das cidades, as rotas estabelecidas e o trabalho dos carteiros. Tamb\u00e9m foi apenas tangenciado o tema do e-commerce, esse novo produto do urbano exigente de fluidez e intensivo em informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">+ As pessoas que ajudam a sustentar Outras Palavras recebem 25% de desconto em qualquer livro da Editora Elefante<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O frenesi da velocidade \u00e9 uma palavra de ordem do nosso per\u00edodo. Enquanto os servi\u00e7os mais expressos s\u00e3o seletivos no territ\u00f3rio, um correio mais lento continua servindo a milh\u00f5es de brasileiros todos os dias, seja para o envio de cartas, encomendas, recebimento de faturas de pagamento ou mesmo a compra pela internet. Ub\u00edquo e universal, esse correio, n\u00e3o do tempo do capital hegem\u00f4nico que n\u00e3o pode parar, mas do tempo das pessoas que no seu cotidiano param para sorrir ao abrir uma correspond\u00eancia, resiste e desafia a pr\u00f3pria seletividade excludente do expresso no per\u00edodo atual.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><big>\u00a0<\/big><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><big><strong>Dire\u00e7\u00e3o Nacional da ADCAP.<\/strong><\/big><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ge\u00f3grafo mostra, em livro essencial, como a empresa p\u00fablica vai al\u00e9m do servi\u00e7o postal: \u00e9 tamb\u00e9m elo important\u00edssimo para conectar o pa\u00eds e articular pol\u00edticas p\u00fablicas. 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